quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Somos todos senegaleses

Florença, Verão de 2010 – Assisto a uma das cenas mais escabrosas de 37 anos de vida. Nas movimentadas ruas de Florença, próximo do Duomo, a Polícia procura cercar os vendedores ambulantes africanos que por ali procuram ganhar uns euros. O empenho das autoridades é tal que, a certa altura, um polícia montado numa moto, inicia uma perseguição a alta velocidade pelo meio dos transeuntes. Imaginem o que seria uma perseguição em motorizada na Rua Augusta ou na Rua de Santa Catarina, pelo meio dos peões. Foi tal a minha estupefacção e revolta que nem me lembrei que tinha à mão a máquina fotográfica. A estranheza e repulsa pareciam atingir apenas os turistas, pelo que presumo que os fiorentinos estivessem habituados a tais performances. Berlusconi governava a Itália e as políticas anti-imigração estavam bem presentes na sociedade italiana.



Lembrei-me de tudo isto hoje, ao ouvir a notícia do que se passou ontem na capital toscana. “Dois senegaleses mortos por extremista de direita em Florença”, rezam os títulos dos jornais. Se é em altura de crise que este tipo de sentimentos se apresentam de forma menos envergonhada, é também nestas alturas que se deve adaptar a famosa palavra de ordem anti-racista e dizer “Somos todos senegaleses”.




Isto não é futebol mas é bom lembrar que há coisas bem mais importantes que o maior espectáculo do mundo. Mas mesmo aqui há sinais perigosos. Nas últimas semanas, recordo-me de ter voltado a ouvir os infames guinchos em campos de futebol – Olhão e Aveiro. Nos estádios como nas escolas ou nas empresas, convém estar atento. A seu lado pode estar sentado uma besta que se deixa levar pelo facilitismo da crítica do “outro” apenas porque o “outro” é diferente, seja na cor da pele ou na forma de vestir, pensar, falar ou sentir. O resto de civilização que ainda nos resta depende de cada um. Bem a propósito, cito uma carta famosa do sub-comandante Marcos e que tão bem ilustra o desafio imenso com que nos defrontamos:



“Marcos é gay em São Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestiniano em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, roqueiro na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas anteriores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México. Enfim, Marcos é um ser humano qualquer neste mundo. Marcos é todas as minorias intoleradas, oprimidas, resistindo, exploradas, dizendo ¡Ya basta! Todas as minorias na hora de falar e maiorias na hora de se calar e aguentar. Todos os intolerados em busca de uma palavra, sua palavra. Tudo o que incomoda o poder e as boas consciências é Marcos.”

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